O que você faria se estivesse em 1810 para salvar uma cervejaria à beira da falência usando seu telefone celular? Esta é uma história sobre uma viagem no tempo até as origens da Oktoberfest.
O início da jornada segue a mesma dinâmica de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll: Alice está sentada à beira de um lago, ao lado de sua irmã, que lê um livro sem figuras. De repente, um coelho branco passa e desperta a curiosidade de Alice, que o segue e, ao entrar na toca, cai em um mundo fantástico.
Outra referência é a lenda germânica de Gambrinus, o Rei da Cerveja. Há diversas versões da lenda, mas a usada aqui é a de um jovem aprendiz de vidraceiro que se apaixona por Flandrine, filha do dono da vidraçaria. Ao ser rejeitado, Gambrinus vai para a floresta para se enforcar e encontra o Diabo, que lhe oferece um dom infalível para conquistar a moça em troca da alma do rapaz após 30 anos.
O Diabo primeiro o transforma em um músico e dançarino espetacular, mas a jovem continua a rejeitá-lo. Diante do fracasso e do sofrimento do rapaz, o Diabo ensina a Gambrinus o segredo de fabricar cerveja com lúpulo, capaz de fazer esquecer as mágoas.
Gambrinus se torna um mestre cervejeiro de imenso sucesso, enriquece, ganha o título de “Rei da Cerveja” e supera a mágoa do amor não correspondido. Trinta anos depois, quando o Diabo retorna para cobrar a dívida, Gambrinus o embriaga com tanta cerveja que o demônio desiste de levar a alma dele.
Nesta nossa história, a lenda ganha uma adaptação mais divertida e Flandrine, em vez de ser o prêmio desejado, ganha um novo papel. Ela está presente em todos os momentos e se destaca como elemento fundamental para o desenrolar da trama.
Veja fatos históricos acontecendo enquanto é elaborado um ousado e insano plano de negócios para criar a mais famosa festa popular de cerveja do mundo.
Beni ajeitou o penacho no chapéu bávaro de veludo, sentado em um banco ao lado de sua irmã. Ela rolava a tela do celular sem saber o que acontecia ao redor. Uma vez ou duas ele dava uma olhada no scroll infinito que a irmã assistia, mas não achava nada tão interessante.
Então ele pensava consigo mesmo (tão bem quanto era possível depois de tanta bebida), como alguém conseguiu inventar uma festa que mistura roupas típicas, música, cerveja e alegria com tanta alma. A Oktoberfest.
Uma moça com um vestido tradicional, um Dirndl, carregando canecos cheios passou apressada perto dele, como se as Maß não pesassem nada. Ela olhou para ele de relance. Beni se levantou e foi atrás dela no meio da multidão, mas ela era muito mais ágil. Quando finalmente chegou próximo dela, os amigos com quem viajava entraram na sua frente e ele a perdeu de vista.
Os amigos o desafiaram a fazer um tipo de coisa estúpida e divertida para quem gosta de coisa divertida e estúpida no estilo Jackass. Não era algo que alguém faria sóbrio, mas depois de muitas cervejas não faltou coragem para entrar dentro de um barril e começar a rolar alguns metros pela rua empurrado pelos amigos.
O barril parou, mas a cabeça continuava girando. Beni saiu do barril engatinhando e se levantou, batendo as mãos no seu traje típico de camponês.
— Você deve ser o jovem chamado Gambrinus, um dos filhos do taberneiro — resmungou um cara grande de bigode com avental de couro surrado.
— Isso. — Beni respondeu sem pensar e olhou para os lados procurando os amigos. Estava em um galpão de terra batida.
O homem pegou uma caneca de barro grosso, dessas com a borda lascada de tanto uso. Encheu do barril mais próximo. Empurrou na direção dele.
— Prove.
E quando Beni bebeu, sentiu um líquido morno, espesso e um gosto forte de fumaça e pão velho.
— Isso não é cerveja.
O homem toma de volta. Olha para o líquido que sobrou. Bebe também.
— Parece ótimo pra mim.
A porta dupla de madeira se abre com força. A luz do dia entra no galpão escuro. Beni aperta os olhos. Entram três pessoas. O mestre cervejeiro larga a vara. Limpa as mãos no avental. Faz uma reverência rápida.
— Herr Direktor. Herr Chef. Fräulein.
O mais engomado caminha pelo galpão, devagar, olhando as instalações ao redor.
— Esta é uma das cervejarias que vão servir o casamento de Sua Alteza?
O velho — o dono — fala rápido, nervoso:
— Sim, Herr Direktor. A Bruder Benedikt tem tradição. Mais de duzentos anos. Meu pai serviu o pai do príncipe. Meu avô serviu o avô.
— Tradição não enche barril.
O enviado para na frente do barril de onde Beni saiu. Olha para o barril. Olha para Beni, ainda parado ao lado da mesa com a caneca de barro na mão.
— Quem é esse?
— É o novo aprendiz — diz o mestre cervejeiro. — Gambrinus, filho do taberneiro.
— Gambrinus? — ri o enviado. — Como o rei da cerveja?
O enviado olha para Beni de cima a baixo. Traje típico de camponês, sujo de terra, cabelo desgrenhado.
— Parece mais um bêbado que caiu de um barril.
Beni abre a boca para responder. O dono da cervejaria intervém:
— Herr Direktor, o senhor quer provar a cerveja? A que fizemos para o casamento?
O enviado pega a caneca da mão de Beni. Cheira. Faz uma careta. Bebe um gole pequeno. Cospe no chão.
— Isso é água de barril. Sua Alteza espera uma cerveja digna da princesa Therese.
— Isso, água de barril! — Beni concorda, mas é logo afastado para trás pelo braço do mestre cervejeiro.
— A receita é boa, dos monges beneditinos. — A moça que estava junto responde ao enviado do príncipe.
— Flandrine, não. — O enviado fala o nome dela devagar, em tom de desafio.
Mas ela continua:
— Se o senhor nos der tempo, conseguimos.
— Tempo? — ri o enviado. — O casamento é em três semanas. Sua Alteza não vai esperar pela senhorita.
Ele olha para o dono.
— Herr Müller. Se os 30 barris do casamento não estiverem prontos, e com boa qualidade, a Bruder Benedikt será confiscada. A fábrica vira propriedade da coroa. E o senhor e sua filha…
Ele deixa a frase no ar.
O velho abaixa a cabeça.
— Nós vamos conseguir, Herr Direktor.
— Espero que sim.
O enviado joga a caneca de barro na mesa.
— Porque se não conseguir, não vai ser só a fábrica que o senhor perde.
Ele vira as costas e vai embora.
— Quem é você para dizer que nossa cerveja é água de barril? — Flandrine bufando para cima de Beni.
— Não entendo muito de cerveja, mas está longe de ser uma IPA ou lager. E estão de parabéns pela imersão, me senti em uma verdadeira cervejaria do passado.
Flandrine não entendeu nenhuma palavra, mas estava tão irritada e preocupada com o futuro da cervejaria que ignorou o rapaz.
Enquanto ela discutia com os dois homens, Beni foi para a porta para encontrar os amigos. Quando botou o pé para fora, finalmente viu que não estava mais na Oktoberfest.
O dono da cervejaria e o mestre cervejeiro esbarram em Beni ao sair do galpão. Ele se reequilibra e volta para dentro para pegar o celular no bolso. A bateria estava no fim, mas ainda com sinal. Ele manda mensagem para os amigos, mas eles não respondem. O relógio na tela parece congelado no tempo sem mudar a hora. Ele abre a localização e no mapa aponta que ele está em Munique.
— Estamos em Munique? — Beni pergunta para Flandrine, que estava pensativa olhando para o tacho onde a cerveja fermenta.
— Onde mais estaríamos! — respondeu sem nem olhar para ele.
— Sabe a data de hoje?
— Faltam três semanas para o casamento do Príncipe Ludwig, seu idiota!
Não era a resposta mais precisa nem a mais educada, mas já ajudava. Com um prompt rápido, a resposta foi que o casamento ocorreu em 12 de outubro de 1810. Agora ficou a dúvida: como ter sinal em 1810? He foi andando pelo galpão e analisando a força do sinal. Flandrine olhou para ele andando de um lado para o outro, achando estranho ele empunhar um pedaço de vidro polido. Bingo, o sinal era mais forte no seu barril. Esse era o modem.
Dava para ver que Flandrine não estava muito satisfeita com os comentários de Beni na frente do enviado do príncipe. O jeito foi pedir desculpas, explicar que achava que era uma coisa e depois entendeu que era outra. Tentar remendar a primeira impressão. Ela foi direta em uma resposta:
— Eu aceito as suas desculpas, mas com uma condição. Quero que você me acompanhe até um mestre arcanista e mesmerista de quem ouvi falar dos seus poderes. Tenho medo de ir sozinha e não quero que meu pai saiba.
Beni pediu para esperar um pouquinho e, de costas para ela, perguntou para o agente de IA o que era um arcanista e mesmerista. A resposta é que arcanista era de magia física e química e o mesmerista de magia mental. Resumindo, charlatão. Mas para quem entrou num barril para rolar pela rua, não se pode negar ir a uma consulta com um charlatão. Quem sabe ele podia ajudar a carregar o celular.
— Sim, ótima ideia, vamos quando você quiser.
Flandrine mandou Beni a seguir, antes mesmo dele terminar de falar.
A dupla caminha pelas ruas arborizadas de Schwabing, o bairro dos intelectuais. Eles chegam aos fundos de um casarão de pedra. Flandrine empurra um portão de madeira pesada e eles entram direto no nível da rua em um pátio interno reservado, onde as carruagens dos clientes ricos e os barris de contrabando são descarregados.
Logo na entrada do pátio, estão os homens do "Arcanista". Eles usam coletes de couro bem cortados e botas pesadas. Têm braços robustos de quem move centenas de quilos sem esforço e cara de poucos amigos. Um deles, com um aceno silencioso de cabeça, aponta para uma porta de carvalho maciço ali mesmo no térreo, que dá direto na sala privada do chefe.
Beni esperava por uma bagunça de cientista, mas era uma sala com paredes de pedra escura, silenciosa, iluminada pela luz horizontal de meio de tarde. No centro, há apenas uma pesada mesa de carvalho negro com uma pena, tinteiro e folhas de papel. O charlatão sentado à mesa parecia já estar esperando por eles com um largo sorriso no rosto.
O tal Herr Voland não estava muito interessado em Flandrine. Se dirigia apenas a Beni. Flandrine não estava nada à vontade naquele lugar, com um certo arrependimento de ter ido.
— Qual seu desejo, irmão Benedito? Deseja o amor dessa jovem ou riqueza e poder?
Beni achou impressionante que ninguém pergunta seu nome e o chamam como querem. O charlatão deve ter usado o nome da cervejaria achando que era dele. Parece pesquisa prévia de cliente mal feita.
— Na verdade, Herr Voland, amor e riqueza são interessantes, mas o que precisamos nesse momento é saber como recarregar esse aparelho.
Beni mostrou o aparelho a Herr Voland, que abriu um sorriso, como se aquele dispositivo inspirasse nele grandes oportunidades. Flandrine olhou com atenção para o telefone, que nessa hora não passava de um vidro preto inútil.
— Então podemos fazer um contrato. — Herr Voland pegou a pena e o tinteiro e começou a escrever. — Eu digo como dar vida ao seu objeto e você, daqui a 30 dias, me dá a sua alma.
Beni olhou para Flandrine, que estava com os olhos arregalados, olhou em seguida para Herr Voland.
— Fechado, temos um acordo.
Herr Voland terminou de escrever o contrato todo satisfeito.
— Agora corte o seu dedo e coloque no papel para selarmos o acordo.
— Nem preciso cortar o dedo, com licença. — Beni pega o tinteiro e molha o polegar com a tinta e marca a digital no papel. — Pronto, negócio fechado! Agora, como carrego o meu aparelho?
Flandrine já estava sem entender nada havia tempo, e Herr Voland ficou menos sorridente, mas cumpriu a sua parte.
— Para dar vida ao aparelho, encoste ele no sino da Igreja de Todos os Santos na Cruz, que fica no Cemitério de São Pedro, após os badalos.
— Entendi, tipo carregamento por indução! Sino é de bronze, liga de cobre e estanho, campo magnético… vou tentar. Se não funcionar, o contrato não vale nada, certo?
— Vai funcionar, tenha fé!
Beni e Flandrine saíram do consultório do arcanista. Após ficarem longe das vistas dos capangas, ela tenta entender o que aconteceu.
— Você vendeu a sua alma para o Diabo por causa desse pedaço de vidro inútil? Minha família vai perder a cervejaria, você vai perder a sua alma e ainda está com esse sorriso idiota na cara?
— Querida Fräulein Flandrine, esse pedaço de vidro tem todo o conhecimento do mundo dentro dele. Que horas bate o sino da tal igreja e como vamos fazer para chegar até ele?
Antes de ir para a igreja, Beni e Flandrine passaram na cervejaria, onde ela encheu uma jarra de barro de 2 litros. Para ser cavalheiro, Beni se ofereceu para carregar, mas Flandrine vê a falta de habilidade do rapaz em segurar o Krug. Ela pega das mãos dele e segue apressada como as moças de Dirndl carregando as Maß pela Oktoberfest. A pressa era para chegar antes da hora do Angelus.
Chegaram na Kreuzkirche faltando pouco tempo para as 18h. Flandrine contou que essa igreja estava interditada por uma questão burocrática, alguma coisa a ver com Napoleão e servindo apenas como depósito de feno. Dentro estava apenas o sacristão ajeitando as cordas para tocar o sino. Ele aceitou a jarra de cerveja em troca de deixá-los subir ao campanário após o toque do Angelus.
O sacristão destranca a pequena porta que dá acesso à torre e começa a badalar o sino. Beni e Flandrine ficam perto da porta, com os ouvidos tampados, rindo do barulho. Quando o sacristão para, eles abrem a porta e sobem apressados pela estreita escada de caracol. No alto, Beni encosta o celular na borda do sino, ainda sentindo a vibração do bronze. O alerta de carregamento rápido acende, e a porcentagem começa a subir.
— Olha como é bonito daqui de cima. — Flandrine, ainda ofegante com a subida, fica fascinada pela vista da cidade. Esqueceu por que tinham subido. Começou a apontar para os lugares que até então só havia visto andando pelas ruas.
Beni dividia o olhar entre a paisagem, os relatos de Flandrine e a porcentagem da bateria. Em poucos minutos, a bateria chegou a 100%. O diabo cumpriu a sua parte do trato.
— Flandrine. Vira para cá. — Beni, ao lado dela, faz uma selfie com Munique de 1810 ao fundo.
A moça não fala nada. Ela pega o telefone e fica olhando a própria imagem, que até hoje só havia visto em espelhos.
— É uma pintura mágica?
Beni achou melhor não tentar explicar o que não tem explicação. Afinal, atualmente, mesmo com todo mundo tendo um celular na mão, ninguém entende como ele magicamente funciona. É como no livro "Alice no País das Maravilhas". Coisas absurdas e surreais acontecem, mas todos encaram com naturalidade.
— Sim, uma pintura mágica. Esse vidro faz outras coisas também, mas precisamos estar perto daquele meu barril na cervejaria. E com a ajuda desse vidrinho você vai fazer a melhor cerveja de Munique!
De volta à cervejaria, Beni começa a ver o nível do sinal.
— Flandrine, vamos até ali perto do Jackass. — Ele aponta e batiza o seu barril modem.
— Nome esquisito, é em homenagem a algum parente seu?
— Em homenagem a um grupo que inspira jovens a fazer aventuras. Mas com um alerta de "não tente fazer isso em casa".
Flandrine já estava normalizando não entender muita coisa vinda de Beni.
Beni acessa um agente de IA e evita usar voz, porque isso elevaria o estranhamento de Flandrine a outro nível. Ele fica sentado perto para olharem a tela juntos. Beni pergunta quais as cervejas que são possíveis de fazer em três semanas. Flandrine sabe ler, mas não com muita fluidez, nem consegue acompanhar direito o que Beni escreve. Ele percebe e vai narrando o que está fazendo para ela não perder nada.
— Quais cervejas é possível fazer em três semanas. — Um segundo após digitar, veio uma tabela com a resposta mostrando uma lista de várias cervejas e o tempo de cada uma, até as de mais de três semanas. — Weizenbier e Ale são as possíveis.
— Meu pai não faz Weizenbier. Essa Ale não sei o que é.
Beni fez um novo prompt, agora dizendo que está no ano de 1810, com uma amiga que tem uma cervejaria em Munique, com três semanas para produzir cerveja para o casamento do Príncipe Ludwig.
A resposta demorou um pouco mais. Depois veio:
Weizenbier é viável em 3 semanas, mas verifique disponibilidade de trigo e autorização real. Em Munique, a produção de trigo era monopólio da coroa. Alternativa: ale de cevada de fermentação alta, com malte bem modificado.
Beni leu em voz alta, devagar.
— Monopólio da coroa. — Flandrine assentiu. — É o que eu disse. Weizen aqui não dá.
— Então ale de cevada.
— Cevada a gente tem. — Ela olhou para o tacho. — Mas o que é ale?
— É cerveja de fermentação alta. Como a Weizen, só que sem trigo.
— Então é cerveja normal.
— Mais ou menos.
Beni continuou fazendo perguntas ao agente de IA e adaptando as alternativas com o que Flandrine tinha disponível. Dois mil litros de cerveja, sem energia elétrica, com os recursos limitados de uma cervejaria de 1810.
O plano que saiu do celular era uma ale de cevada. Nada de trigo, nada de lager. Fermentação alta, pronta em três semanas, se a levedura fosse boa e com controle de temperatura.
Para começar, eles precisavam da levedura de alta fermentação, que era diferente da usada pela cervejaria da família de Flandrine. O agente de IA deu algumas sugestões de como conseguir uma amostra para replicar. A melhor alternativa era na cervejaria Hofbräuhaus. Beni pensou em uma troca: o fermento por uma solução para um problema que aquela cervejaria só resolveria anos depois.
Hoje a Hofbräuhaus é uma das cervejarias mais famosas do mundo. Turistas de todos os cantos enfrentam filas para sentar nos bancos compridos, tirar fotos com canecas de litro e ouvir música ao vivo. Mas em 1810, quando Beni entrou rolando o seu barril Jackass e Flandrine veio atrás carregando o Krug vazio, o lugar não tinha nada de famoso. Era rústico, como todas as outras cervejarias.
O atendimento ao cliente era total self service. Ele mesmo tinha que ir buscar sua própria caneca, lavá-la na fonte e servir sua própria cerveja no balcão. Algo totalmente normal para o padrão da época.
A cerveja, no entanto, já era boa, muitas vezes excelente. E o lugar atraía um tipo específico de frequentador — os "Hofbräuhäusler", bebedores assíduos que se acostumaram com todas as inconveniências e formaram ali um pedaço autêntico e rústico da vida popular de Munique.
A dupla foi ao encontro do mestre cervejeiro para propor a barganha. O mestre cervejeiro olhou para os dois como se fossem vendedores de bugigangas.
— O que vocês querem?
— Fermento de alta fermentação. — Beni sentou o barril no chão e encostou o celular nele. — Em troca, eu resolvo um problema seu.
O mestre riu.
— Que problema?
Beni olhou para os barris encostados na parede. Cheirou o ar. Havia azedo no fundo, aquele cheiro de cerveja velha que não sai.
— Seus barris azedam. — Ele apontou para o canto. — Aquele ali está pior.
O mestre parou de rir.
Beni digitou rápido, leu, e narrou para Flandrine:
— Cal virgem. Escalda o barril com cal virgem e água. Deixa secar. O azedo vai embora.
O mestre franziu a testa. Olhou para o barril do canto. Olhou para Beni. Depois chamou um aprendiz e mandou trazer cal que usavam para reparos de obra.
Escaldaram o barril ali mesmo. O cheiro mudou. O mestre enfiou o nariz na boca do barril, inspirou fundo, e ficou quieto por um instante.
— Onde você aprendeu isso?
— Longe daqui.
O mestre resmungou algo como "porque nunca pensei nisso antes", mas mandou um dos aprendizes buscar um pote de fermento. Entregou a Flandrine com um aceno de cabeça.
— Se o barril azedar de novo, eu mando te encontrar.
— Não vai azedar.
Eles saíram com o pote de fermento. Flandrine carregava o pote como se fosse ouro. Beni carregava o Jackass.
De volta à cervejaria, o fermento estava garantido. Agora era replicá-lo com a temperatura certa.
— Flandrine, onde está o termômetro da cervejaria? Vamos precisar dele agora.
Ela coloca as mãos na cintura e fica olhando para ele sem responder.
Beni percebe que ela não sabe do que ele está falando. Senta no barril e abre o agente de IA.
"Onde consigo um termômetro de precisão em Munique, 1810?"
A resposta demora um segundo. Boticários vendem termômetros, mas as escalas são largas demais, sem precisão para fermentação. O lugar certo é o Instituto Matemático-Mecânico, onde fazem instrumentos para cientistas.
"Preciso oferecer algo ainda não descoberto sobre termômetros para barganhar uma troca."
Com a resposta em mãos, Beni olha para Flandrine.
— Você sabe onde fica o Instituto Matemático-Mecânico?
— Sei onde fica. Não conheço ninguém lá dentro.
— Nem eu. Vamos fazer uma visita.
Chegando ao instituto, eles entram num pátio de terra batida. À esquerda, uma forja com cheiro de carvão. À direita, uma porta de madeira maciça, aberta. Lá dentro, bancadas, ferramentas, vidro por todo lado. Um aprendiz de uns quinze anos está varrendo cacos. Ele para quando vê os dois.
— O que vocês querem?
Flandrine fala primeiro, firme:
— Somos da cervejaria Bruder Benedikt. Viemos falar com o mestre vidraceiro a respeito do casamento do Príncipe Ludwig.
O aprendiz olha de cima a baixo. Traje de camponês, mãos sujas, uma moça de Dirndl. Não parece encomenda da corte. Mas "casamento" e "príncipe" são palavras que ele não pode ignorar.
— Esperem aqui.
Ele some atrás de uma porta lateral. Volta depois de um minuto.
— O mestre pergunta o que a Bruder Benedikt quer com um vidraceiro.
Beni se inclina.
— Diga a ele que eu sei por que os termômetros dele explodem a 100 graus.
O aprendiz pisca. Vai de novo. Volta.
— O mestre manda entrar.
O mestre vidraceiro está sentado num banco alto, curvado sobre a bancada. Tem os dedos grossos e queimados, as unhas curtas, e um tubo de vidro na mão. Não levanta a cabeça quando eles entram. Só os olhos.
O aprendiz some. A porta lateral bate. Flandrine olha para um tipo de ambiente em que nunca tinha entrado antes. O vidraceiro se dirige a Beni.
— Você disse que sabe por que os termômetros explodem. E o que isso tem a ver com o casamento do príncipe?
— Nós precisamos de um termômetro de precisão para a nossa produção de cerveja do casamento, e que ele não exploda na hora de calibrar com água fervente. Então nós dizemos como resolver o seu problema, e ficamos com um protótipo.
O mestre vidraceiro estava incrédulo, mas aceitou ouvir a solução e prometeu o protótipo se ela fizesse sentido e funcionasse.
— Então fala.
Beni não se aproximou da bancada. Ficou onde estava, ao lado de Flandrine, e falou como quem repete uma instrução decorada. Porque era exatamente isso.
— Tubo fino, uns trinta centímetros. Bulbo embaixo, capilar uniforme. Mercúrio dentro, mas não enche até o fim. Antes de fechar, aquece o conjunto na água fervendo. Deixa o mercúrio subir e empurrar o ar para fora. Depois sela a ponta com uma folga em cima. Dois dedos de vazio.
Beni da uma conferida discreta no que o agente de IA tinha respondido antes e acrescenta:
— Para gerar o vácuo, usa o mesmo processo dos barômetros. Ferve o mercúrio dentro do tubo, deixa o vapor expulsar tudo, e sela a ponta ainda quente, antes de esfriar.
O mestre vidraceiro fez todo o processo rapidamente em sua mente conforme ouvia. Pegou os materiais e ferramentas que precisava e em pouco tempo o protótipo estava pronto. Depois de uma espera para resfriar, o mestre enfia o termômetro na água quente e ele não quebra.
O mestre fixou o termômetro em um suporte de madeira e fez a marcação dos 100 °C. Como não tinha gelo na hora, não era possível fazer a marca do 0 °C.
De volta à cervejaria, eles precisavam fazer o resto das marcações. Beni teve uma ideia sem nem precisar do agente de IA. Era uma solução MacGyver: usar a temperatura do corpo para marcar 36 °C e depois fazer os intervalos de 5 em 5 graus. Para até o 0° era só repetir o espaço para baixo.
Não é a precisão da NASA, mas suficiente para fazer cerveja.
Agora eles já tinham tudo para começar a produção. Só faltavam duas coisas. Uma era o cronograma. Beni fez um rápido com o agente de IA e escreveu com giz na tampa de um barril velho, que estava de lado em uma prateleira.
Beni virou o barril de lado e ajoelhou ao lado dele. Com o giz, traçou uma linha horizontal de ponta a ponta da tampa. No começo, escreveu D1. No fim, D21. Entre os dois, marcou os dias com traços pequenos, como um calendário de parede.
Sobre a linha, escreveu as etapas, cada uma na altura do dia correspondente:
Propagação — D1 a D4. Mostura, fervura, resfriamento, inóculo — D5. Fermentação — D6 a D19. Envase — D19 a D20. Condicionamento — D20 a D21.
Abaixo da linha, os nomes: Flandrine, mestre, Beni, todos. O que cada um faz, e quando.
Depois, ao lado do cronograma, escreveu outra lista. Menor. Mais direta.
Propagação: 25 °C. Mostura: 50–65–75 °C. Fermentação: 15–24 °C
Flandrine olhou para os números. Depois para o termômetro na mão. Depois para Beni.
— Eu sei fazer cerveja. Só não sei ler isso.
— Quando o mercúrio chegar no número, você faz o que tem que fazer. Água quente demais, mata o fermento. Fria demais, ele dorme.
Ela assentiu. Guardou o termômetro no bolso do avental e foi acender o fogo.
Flandrine acendeu o fogo sob o tacho pequeno. Enquanto a água aquecia, mediu o malte com uma caneca de lata — duas medidas rasas. Para propagação, mosto fraco. Mais água que grão.
Encostou o pulso na lateral do tacho. Ainda não. Esperou. Quando o vapor subiu, olhou para a tampa do barril. Depois pegou o termômetro no bolso. Mergulhou o bulbo na água. O mercúrio subiu devagar. Ela acompanhou com os olhos, comparando com o número que Beni tinha escrito. Sessenta e cinco. Boa.
Jogou o malte, mexeu com a vara, quebrando os grumos. O cheiro doce subiu pelo ar. Continuou mexendo, fogo baixo, olhando o termômetro de vez em quando. Não podia passar de setenta. O número estava na parede. Ela não precisava decorar.
Beni ficou no celular com o temporizador ligado. Depois de quase uma hora, Flandrine tirou o tacho do fogo. Coou o mosto num barril pequeno, através de um pano de linho. Apertou o pano com as mãos, espremendo o resto. Jogou os grãos usados num cesto — iam para os porcos.
O mosto estava morno. Olhou o termômetro. Vinte e cinco. Ainda quente demais. Deixou na sombra, perto da porta, e foi lavar as mãos.
Quando voltou, vinte. Pegou o pote de fermento da Hofbräuhaus. Cheirou. Azedo, frutado, vivo. Despejou no barril. Mexeu devagar. Cobriu com um pano limpo e amarrou com um cordão.
Beni apareceu ao lado dela.
— Pronto?
— Pronto. Amanhã repica para o barril maior. Depois de amanhã, para o tacho.
Ele assentiu. Olhou para o cronograma na tampa do barril. Dia 1, propagação. Feito.
A porta se abriu. O velho Müller entrou. Atrás dele, o mestre cervejeiro. Era a segunda coisa que faltava: falar do plano para o pai de Flandrine.
O velho parou. Olhou para o barril virado, para o giz, para o barril pequeno coberto, para o termômetro pendurado. Depois olhou para a filha.
— O que é isso?
Flandrine respirou fundo. Beni se levantou.
— Pai, a gente precisa conversar.
O velho não sentou. Ficou de pé, olhando o cronograma na tampa. Não sabia ler bem. Mas reconheceu os traços, os nomes. E os números.
— Quem escreveu isso?
— Eu. — Beni deu um passo à frente. — É o plano para os próximos vinte e um dias.
— Que plano?
— O plano para salvar a nossa cervejaria.
— A minha cervejaria tem duzentos anos. — A voz do velho era baixa. — Meu pai serviu o pai do príncipe. E você chega aqui, cai de um barril, e acha que sabe fazer cerveja melhor do que nós?
— Não melhor. Diferente. Mais rápida. A sua receita não fica pronta em três semanas. Essa fica.
O velho olhou para a filha. Para o barril coberto. Para o termômetro.
— E se der errado?
— Aí a gente perde tudo de qualquer jeito. Mas se não tentar, também perde. A diferença é que, tentando, tem uma chance.
O velho virou-se para o mestre cervejeiro.
— Você sabia disso?
O mestre hesitou.
— A menina me chamou ontem. Disse que iam tentar uma receita nova. Eu não sabia que era tudo isso.
O velho resmungou. Olhou de novo para o cronograma. Para a filha. Para Beni.
— Três semanas?
— Três semanas.
Ele soltou o ar pelo nariz. Puxou um banco e sentou. Não disse sim. Não disse não.
— Então me explica.
Beni explicou. A fermentação alta, o mosto fraco, o termômetro, o lúpulo em duas etapas. O velho ouviu sem interromper. O mestre cervejeiro se aproximou, curioso apesar de si mesmo.
Quando Beni terminou, o velho ficou quieto. Depois olhou para o mestre.
— Você entendeu?
— A parte do fermento, sim. O resto...
— O resto a gente aprende fazendo. — O velho se levantou. — Se é para perder tudo, que seja tentando.
Estendeu a mão para Beni. Um aperto de negócio. Duro, curto, seco.
— Você tem vinte e um dias. Depois disso, ou a gente serve a cerveja do príncipe, ou a coroa toma a minha casa.
— Vinte e um dias.
O velho soltou a mão. Olhou para a filha.
— E você. Podia ter me contado antes.
— Você não ia deixar.
— Não ia mesmo. — Ele quase sorriu. Quase. Depois se virou para o mestre. — Vamos. Tem barril para limpar.
— Pai, tenho que te contar sobre uma nova forma de limpar usando cal.
Estava nascendo uma nova mestre cervejeira.
Passaram dez dias, e o enviado do príncipe chegou sem avisar. Entrou no galpão com dois guardas e o mesmo nariz torcido de dias atrás. O velho Müller saiu da cave com as mãos sujas de malte. O mestre cervejeiro parou no meio de um movimento com a vara. Flandrine estava ao lado do tacho grande, o termômetro pendurado no avental. Beni estava sentado perto do Jackass.
— Herr Direktor. — O velho limpou as mãos no avental. — Não esperávamos o senhor tão cedo.
— Vim ver o progresso. — O enviado caminhou pelo galpão, olhando os barris alinhados. Cheirou o ar. — Está fermentando.
— Está.
— Prove.
Silêncio. Ninguém se mexeu. A cerveja tinha seis dias de fermentação. Verde, turva, sem gás. Provar agora era como provar massa de pão antes de assar.
Flandrine foi até o barril maior. Abriu a torneira. Encheu uma caneca de barro pela metade. O líquido saiu opaco, cor de palha suja, com uma espuma fina que sumiu rápido. Ela entregou ao enviado.
Ele olhou para a caneca. Cheirou. Bebeu um gole. Segurou na boca. Engoliu.
Silêncio.
— Não está pronta.
— Não. — Flandrine não recuou. — Faltam dez dias.
O enviado olhou para ela por um instante. Depois para o barril. Para o termômetro no avental dela. Para o rapaz sentado no canto com um vidro preto na mão.
— O que é isso? — Ele apontou para o termômetro.
— Um instrumento de precisão. Para medir a temperatura da fermentação.
— De onde veio?
Flandrine hesitou. Beni se levantou.
— Do Instituto Matemático-Mecânico.
O enviado olhou para ele. Reconheceu o rosto. O rapaz que tinha caído de um barril.
— Você ainda está aqui.
O enviado ficou em silêncio por um tempo. Depois olhou de novo para a caneca na mão. Bebeu mais um gole. Menor. Engoliu.
— Dez dias?
— Sim, dez dias. — Flandrine falou antes que o pai pudesse.
O enviado olhou para ela. Depois para o velho. Depois para o mestre. Depois para Beni. Bebeu o que ainda restava na caneca.
— Herr Müller, Fräulein Flandrine. Auf Wiedersehen. — Para Beni e para o mestre cervejeiro, um aceno com a cabeça.
Agora que a produção da cervejaria estava sob controle, Beni tinha outros planos. Todos na Baviera já sabiam: depois do casamento do príncipe, haveria mais cinco dias de festa, e no último uma corrida de cavalos nos arredores da cidade, na Theresienwiese. A coroa só permitia barracas na Colina de Sendling. Quem quisesse vender cerveja para a multidão da corrida, tinha que garantir um lugar lá. Era a grande chance de elevar a Bruder Benedikt a um nível épico — comida, música e muita cerveja.
Flandrine gostou da ideia de ser garçonete — levar canecos até os clientes em vez de esperar que eles fossem até a barraca.
A padaria de Fritz ficava a duas quadras da cervejaria. Cheirava a farinha e lenha antes mesmo de eles chegarem na porta. Lá dentro, o forno era grande, abobadado, com a boca escura. Fritz estava na bancada, sovando. Ida, a esposa, atendia uma cliente. Duas moças trabalhavam no fundo, modelando pães.
Flandrine entrou primeiro. Beni atrás.
— Meister Fritz. Frau Ida.
O padeiro levantou os olhos. Reconheceu Flandrine. Conhecia o pai dela.
— Fräulein Müller.
— Estão sabendo da corrida de cavalos?
Todos já sabiam e estavam empolgados para ir. Beni viu pães de mel no balcão e se lembrou desses mesmos pães em forma de coração.
— Nós vamos montar uma barraca para vender cerveja. Vocês querem montar uma ao lado da nossa?
Fritz e Ida gostaram da proposta. Beni aproveitou o momento e sugeriu algo que poderia ser uma boa estratégia de marketing.
— Todos gostam de pão de mel. Para a corrida, vocês podiam fazer pães em formato de coração.
As filhas do casal se aproximaram, interessadas. Eram bonitas. Jovens. Mãos rápidas de quem mexe massa desde criança.
Flandrine olhou para elas. Depois para Beni.
— Em vez de esperar o povo vir até a barraca, eu vou levar canecos para quem estiver passando. — Ela olhou para as moças. — Suas filhas podiam fazer o mesmo. A gente forma um time. Vende mais e mais rápido.
Fritz olhou para Ida. Ida olhou para as filhas. As duas estavam sorrindo.
— Tá bom. — Fritz estendeu a mão. — A gente monta do lado de vocês.
— Estamos procurando músicos também. — Flandrine já estava se comportando como uma verdadeira profissional de eventos.
Fritz pensou. Olhou para Ida.
— Meu cunhado toca trompa. — Ida falou. — E o filho dele, clarinete. Meu sobrinho tem um violino velho, mas não sei se ainda toca.
— Tem mais? — Beni perguntou.
Ida contou nos dedos. Trompa, clarinete, violino. Pensou mais um pouco.
— O irmão do Fritz tocava gaita de fole. Não sei se ainda tem.
Fritz deu de ombros.
— Tem. Mas ele bebe.
— Melhor ainda. — Beni sorriu. — Bebe e toca.
Véspera do casamento. Eles já tinham a cerveja do casamento quase pronta, e a da corrida faltando ainda alguns dias.
Flandrine abriu a torneira do barril de maturação. A cerveja escorreu pelo pano de linho, clara, limpa, sem sedimento. O líquido no barril de baixo era bonito. Mas pálido.
Beni olhou. Não disse nada. Olhou de novo.
— Tem algum copo de vidro?
Flandrine pegou um dos copos do pai que eram apenas para provas. Beni encheu o copo, levantou contra a luz da janela.
Cor de palha. Não de âmbar.
Ele lembrou das cervejas da Oktoberfest. Douradas, âmbar, quase vermelhas. Essa estava clara demais. Bonita, mas sem alma.
Flandrine percebeu.
— O que foi?
— A cor. Está muito clara.
— Cerveja clara é boa.
— Não para o que eu quero.
Ele sentou perto do Jackass. Abriu o agente de IA.
"Cerveja pronta, mas muito clara. Como escurecer sem estragar?"
A resposta veio rápida:
Malte torrado. Se não tiver, caramelo. Ferva açúcar até dourar, adicione ao barril. Escurece e dá sabor.
Beni leu. Guardou o celular. Olhou para Flandrine.
— Tem açúcar em casa?
— Tem. Para quê?
— Vamos fazer caramelo.
Flandrine foi buscar o açúcar. Beni acendeu o fogo sob uma panela pequena. Despejou o açúcar. Mexeu devagar, com a vara de madeira.
O açúcar derreteu. Ficou líquido, claro. Depois começou a dourar. Beni continuou mexendo, sem pressa. O cheiro mudou. Doce, depois amargo, depois profundo. Cor de mel, depois cor de âmbar, depois cor de carvalho.
— Agora.
Despejou o caramelo no barril de cerveja. Mexeu. A cor se espalhou pelo líquido, devagar, como tinta em água. O pálido virou dourado. O dourado virou âmbar.
Flandrine encheu uma caneca. Levantou contra a luz.
— Está bonita.
— Está.
Ela provou. Segurou na boca. Engoliu.
— Está melhor.
Beni provou também. O caramelo tinha feito mais do que cor. Tinha arredondado o amargor do lúpulo. Tinha dado corpo. Tinha deixado a cerveja com gosto de... festa.
— A gente faz isso em todos os barris?
— Em todos. — Beni olhou para o barril. — E guarda um pouco de caramelo para a barraca. Se alguém quiser mais escura, a gente adiciona na caneca.
Flandrine sorriu.
— Você pensa em tudo.
Eles encheram um firkin de 10 litros com a cerveja pronta e taparam com o malho.
A porta se abriu. O enviado do príncipe entrou sem bater. Dois guardas atrás.
— Vim pela prova.
Beni pegou o copo de vidro, limpou com um pano e encheu com a amostra do firkin. Levantou contra a luz da janela.
— Âmbar profundo. Limpo. Sem sedimento.
Entregou ao enviado.
Herr Direktor olhou. Cheirou. Bebeu. Segurou na boca. Engoliu.
Silêncio.
Bebeu mais um gole. Maior.
— Está pronta.
— Está.
Ele olhou para o copo e mordeu os lábios. Olhou para o barril. Para Flandrine. Para o velho Müller, que tinha acabado de entrar e ficou parado na porta. Para o mestre cervejeiro, no canto.
— Então envasem. Os trinta barris saem amanhã de manhã. — Hesitou por um momento e continuou. — Vou levar esse firkin.
— Herr Müller. Fräulein Flandrine. — Olhou para Beni. — Herr Gambrinus. — Olhou para mestre cervejeiro. — Herr Braumeister.
Um aceno com a cabeça. Para os quatro.
Saiu. Os guardas atrás. A porta bateu.
O velho Müller ficou parado por um instante. Depois foi até a bancada. Pegou o copo de vidro que o enviado tinha usado. Olhou contra a luz. Bebeu o que restava.
No dia 12, os sinos de Munique tocaram a manhã inteira. Beni, Flandrine e o velho Müller ficaram no pátio da cervejaria, ouvindo. Não eram convidados. Ninguém era. Mas o som chegava até ali.
Mais tarde, viram a comitiva passar na rua — carruagens, cavalos, bandeiras. O povo na calçada, gritando. Flandrine ficou na ponta dos pés para ver melhor.
— Acha que estão bebendo a nossa cerveja?
— Se Herr Direktor não bebeu tudo antes, com certeza sim.
O velho Müller não disse nada. Mas ficou no pátio até a última carruagem passar.
Nos quatro dias seguintes, Munique inteira festejou. Música nas ruas, iluminação nas fachadas, povo bebendo nas tavernas. A Bruder Benedikt vendeu cerveja para quem passava. A mesma cerveja dos convidados do príncipe, mas ninguém sabia.
No quinto dia depois do casamento, antes do amanhecer, uma fila de carroções estava carregada. Barris de cerveja, sacos de pão, o espeto de ferro, a lenha, os instrumentos. E não podia faltar o barril Jackass. Fritz e Ida vieram com as filhas. Os músicos chegaram um a um, com os instrumentos embrulhados em panos. O churrasqueiro — um homem grande de mãos grossas, indicado por Ida — apareceu por último, com o carneiro no ombro.
Os homens usavam chapéu verde de feltro com penacho — o mesmo modelo do chapéu dele, mas novos, feitos às pressas por um chapeleiro do bairro. As mulheres usavam Dirndl, com a fita verde no cabelo ou no avental. Fritz e Ida de traje domingueiro. Os músicos com coletes escuros e chapéus verdes.
O sol ainda estava baixo quando o carroção parou no alto da colina. A vista era livre: lá embaixo, a pista de corrida demarcada por estacas e cordas. Ao redor deles, as cervejarias já se instalavam. Tábuas, lonas, barris empilhados. Fumaça de fogueiras. Cheiro de lenha queimada.
A Bruder Benedikt escolheu um lugar onde o povo se acumulava para ver os cavalos. O churrasqueiro fincou o espeto no chão e acendeu a lenha. Fritz e Ida montaram a barraca do pão ao lado — pão de mel em forma de coração, pretzels, pão de centeio, pão de cerveja. Anna e Grete empilharam as bandejas.
Beni desceu do carroção com o Jackass no ombro. Flandrine atrás, com o chapéu dele na mão. Os homens de chapéu verde descarregaram os barris. As mulheres de Dirndl estenderam as lonas.
O mestre cervejeiro fincou quatro estacas e amarrou a lona. O velho Müller ficou de lado, olhando. Não ajudava. Mas também não atrapalhava.
Os músicos afinaram os instrumentos no canto — trompa, clarinete, violino, gaita de fole. O cunhado de Ida já estava com a trompa na boca, testando.
Beni olhou para a barraca. Tábuas sobre cavaletes. Bancos compridos. O espeto com o carneiro girando. As mesas do pão. Os barris alinhados atrás do balcão.
O povo começou a chegar. Primeiro aos poucos. Depois em ondas. Famílias, carroças, crianças correndo. A pista já tinha cavalos sendo exercitados.
Anna e Grete pegaram as canecas. As outras moças da padaria os cestos. Flandrine colocou o chapéu verde de Beni e foi para trás do balcão.
Beni ficou parado um instante, olhando a barraca. O time. Início de um grande dia.
A corrida começou às duas da tarde.
A família real assistia de um pavilhão ao lado da pista, protegido do vento por cortinas. Mais afastados, na vila de Sendling, o povo se espalhava pela encosta da colina, sentado na grama, em pé, subindo em carroças para ver melhor. Eram milhares de pessoas.
Um oficial da Guarda Nacional leu o regulamento em voz alta. Qualquer cidadão podia correr. Não era prova de nobre. Era prova de quem tivesse cavalo e coragem.
Os cavaleiros se alinharam na pista. Doze. Alguns de traje fino, outros de roupa de trabalho. Um deles, um cocheiro de mãos grossas e casaco surrado, chamou a atenção de Beni. Não parecia nervoso. Parecia em casa.
A largada foi um tiro de canhão.
Os cavalos dispararam. A poeira subiu. O povo gritou. Na curva, dois cavaleiros quase se tocaram. Um caiu. O cavalo continuou sozinho. O cavaleiro ficou no chão, xingando.
Na terceira volta, o cocheiro de casaco surrado estava na frente. Não forçava. Só mantinha. O cavalo dele corria como se soubesse o caminho.
Cruzou a linha em primeiro.
O povo explodiu. O nome passou de boca em boca: Franz Baumgartner. Cocheiro. Guarda Nacional. O homem que, diziam, tinha tido a ideia da própria corrida.
A família real aplaudiu do pavilhão. Baumgartner recebeu um prêmio em dinheiro e uma medalha. Não sorriu muito. Parecia cansado. Mas o povo não parou de gritar por vários minutos.
A corrida acabou. O povo não foi embora.
As barracas na colina já estavam cheias. Fumaça de churrasco subindo. Cheiro de pão. As cervejarias que tinham montado barraca estavam cercadas de gente.
A barraca da Bruder Benedikt se destacava. Não porque tinham construído maior. Porque tinham construído melhor. Mesas compridas, bancos de madeira, o espeto girando com o carneiro. Os músicos no canto — trompa, clarinete, violino, gaita de fole — tocando algo que ninguém sabia o nome, mas todo mundo batia o pé.
Anna e Grete carregavam quatro canecas cada. Flandrine atrás do balcão, servindo sem parar. Fritz e Ida vendiam pretzels e pão de cerveja ao lado. O churrasqueiro cortava a carne em pratos de madeira.
Outras barracas tinham gente comprando. A Bruder Benedikt tinha clientes. Gente que esperava vinte minutos por uma caneca. Gente que voltava com os amigos. Gente que ficava.
Beni ficou parado um instante, olhando. O povo bebendo, comendo, cantando junto com a música. As crianças correndo entre as mesas. O sol baixando, a luz dourada em cima de tudo.
Flandrine apareceu ao lado dele. O chapéu verde um pouco torto na cabeça. A caneca vazia na mão.
— A gente vai ter que fazer mais cerveja.
— A gente vai ter que fazer muito mais cerveja. — Ele riu, tomando um gole da própria cerveja.
— Para o ano?
Beni olhou para ela.
— Para todos os anos.
Flandrine pega dois canecos e vai em direção ao público.
— Nada como uma festa com muita bebida, muita comida e mulheres bonitas. — Herr Voland aparece na frente de Beni e tudo ao redor congela no tempo.
— Herr Voland, que prazer em ver você por aqui. É a melhor festa do mundo, não acha?
— Sim, muito boa, eu não faria melhor. — O diabo abre um sorriso largo. — Sabe que já se passaram 30 dias?
— Quer a minha alma, certo.
Beni tira o telefone do bolso e escreve para o agente de IA.
"Estou com o diabo cobrando a minha alma. O que posso fazer?"
Beni dá um sorriso ao ler a resposta e pergunta a Herr Voland.
— Mas o que você entende como alma?
— Meu rapaz, alma é alma, é aquilo que o torna humano, o que te dá vida, alegria e esperança.
Beni enche um caneco com cerveja e oferece ao Diabo.
— Aqui dentro está o que me deu vida, alegria e esperança. Beba e diga se estou mentindo.
O Herr Voland bebe e sente uma tontura.
— Está certo, é verdade. O trato foi pago. Não foi exatamente como eu esperava, então é justo que não seja exatamente como você esperava também.
O mundo volta a se mexer: o barulho, os cheiros e a vibração das pessoas. Herr Voland acena para seus capangas.
Flandrine, de longe, vê Herr Voland junto a Beni. Com os canecos na mão, volta correndo para perto da barraca. Os capangas pegam Beni, apanham o chapéu verde com o penacho que estava na cabeça de Flandrine e enterram na cabeça dele. Colocam Beni dentro do Jackass e começam a rolar o barril.
O barril para, e Beni, ainda tonto, sai de dentro dele engatinhando e se levanta escutando seus amigos rindo e gritando "Beni, Beni". Ele estava de volta à Oktoberfest, e bem na sua frente estava Flandrine segurando uma Maß, achando graça da idiotice, mas ao mesmo tempo preocupada.
— Hei, você está bem?
Fim